SUPER INTERESSANTE

Super Interessante é uma revista que aborda todos os meses, de uma forma séria mas acessível, os grandes temas da atualidade científica, em artigos profusamente ilustrados e com infografias que tornam fácil o que antes parecia difícil.

Da história à tecnologia espacial, da matemática à filosofia, do ambiente à saúde, dos computadores ao comportamento humano, todos os assuntos cabem na Super Interessante.

Super_Interessante_Portugal_Nº_227

Super_Interessante_Portugal_Nº_227

Não toquem no meu ego!

Vivemos num mundo complexo: mais interligado do que nunca, mais interdependente do que nunca, mas também mais radicalizado do que alguma vez foi no último meio século.

Parte dessa radicalização deve-se, não tenho dúvida, ao “efeito de túnel” provocado pela proliferação de canais de televisão que escolhemos em função das nossas preferências sociais e políticas, ignorando que há outras, mas especialmente pela amplificação que as redes sociais dão a certas pessoas e correntes de opinião. É um fenómeno novo e ainda é difícil prever onde nos levará, embora já tenhamos de conviver com vagas de populismo como não se viam desde os anos 30 do século passado (nessa altura, a novidade tecnológica era a rádio, que levou o discurso salvífico dos demagogos a todos os lares).

Não me lembro quem foi que disse que todos os problemas complexos têm uma solução simples, que geralmente está errada. É pena que nos esqueçamos disso quando escolhemos os salvadores do mundo que aparecem com receitas simples para questões complexas. Veja-se o caso da guerra na Síria, por exemplo. A rede de alianças é tão insólita como os múltiplos interesses que ali se cruzam, nem sempre óbvios.

Há uma solução simples? Não há. No entanto, o inquilino da Casa Branca pensa que sim.  Vejamos o problema do narcotráfico do México para os Estados Unidos. Resolve-se com um muro? Não resolve. Os narcotraficantes passam por cima ou pelos lados, se quiserem. O inquilino da Casa Branca não sabe isso, até porque ninguém o contraria, com medo de ser espancado no Twitter. Não toquem no meu ego, que eu sou inseguro!

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Histórias do Tejo

O grande ciclone: O maior temporal de que há memória em Portugal matou dezenas de pessoas, destruiu casas, arrasou quase tudo o que flutuava no Tejo e provocou uma imensa tragédia nos mouchões, que pareciam naufragar como se não passassem de meros navios.

Em 1941, a Segunda Guerra Mundial devastava a Europa, com a Alemanha nazi a mostrar a sua superioridade nas batalhas mais sangrentas que o mundo alguma vez vira. A 15 de fevereiro, o conflito dava mais uma demonstração da maldade suprema pela qual seria conhecido nos livros de história: os primeiros judeus austríacos foram deportados para os guetos de Varsóvia, de onde sairiam apenas para os campos de concentração. Portugal estava alheado da guerra, protegido pela sua ambígua e eficaz neutralidade, mas, nesse mesmo dia, foi atacado por um inimigo tão imparável quanto o exército de Hitler.

Eram três da madrugada quando o Tejo começou a ondular com mais intensidade do que é habitual. A leve brisa aumentou de vigor até se transformar numa ventania de mau agoiro. A cerrada neblina que cobria o rio dissipou‑se, os carneirinhos na água engordaram, os barcos presos às docas das duas margens abanavam como ramos de árvores. A Parceria dos Vapores Lisbonenses arriscou inaugurar as carreiras desse dia, largando um navio da  margem sul, mas, assim que os primeiros raios de sol espreitaram por trás das densas nuvens, já todos os ferryboats se encontravam abrigados em Cacilhas.

A alvorada não trouxe acalmia. Os navios de guerra reforçaram as amarras e os outros  buscaram abrigo nos portos mais próximos, preparados para o pior. Pelas sete da manhã, nem uma embarcação navegava no rio, que entretanto se convertera num pedaço de mar alto em dia de tempestade. Duas horas depois, o olho do ciclone atingiu o Tejo, vindo do Atlântico, e a preocupação deu lugar ao pânico.

Ondas descomunais abateram‑se sobre as muralhas do Cais do Sodré, galgando as margens e obrigando os muitos lisboetas que aí se encontravam a correr, para não serem arrastados. A chuva grossa era projetada caótica e violentamente em todas as direções pelos ventos mais fortes que o povo alguma vez sentira. No meio dos silvos estrepitosos, só se distinguia o som de vidros a partirem‑se e o estrondo de uma ou outra árvore a cair.

Nas ruas, as pessoas agarravam‑se a postes e grades para não serem levadas literalmente   pelo sopro da tempestade.
VAGAS DE 20 METROS
A paisagem era ainda mais assustadora no Terreiro do Paço. Vagas de 20 metros, jurariam no dia seguinte algumas testemunhas, fustigaram impiedosamente a grande praça, que ficou alagada de água como já não acontecia desde o grande maremoto, 186 anos antes.

A meio da manhã, um batelão descontrolado, arrancado às cordas, embateu e destruiu as duas colunas do porto hoje conhecido por Cais das Colunas. A histórica fragata D. Fernando II e Glória, que sobrevivera a três décadas de viagens oceânicas e mais sete  décadas fundeada junto a Lisboa, partiu as amarras e seguiu desgovernada Tejo acima, na direção dos muros de Santa Apolónia. Vários rebocadores foram em seu auxílio, lançando‑lhe cordas de todos os lados, como a um touro enfurecido, até conseguirem controlá‑la. Apitos desesperados de pedidos de socorro ecoaram pelo rio, de Vila Franca de Xira a Paço de Arcos. Muitos barcos apitaram em vão.

 

 

 

 

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